Direita e esquerda – O que é isso?

Direita e esquerda – O que é isso?
Você é de direita ou de esquerda? Por quê?
Tenho lido e ouvida tantas ideias confusas a respeito desses conceitos que me arrisco a escrever aqui sobre eles, esperando ser de alguma forma útil… O texto abaixo é aberto a contribuições – espero correções e observações pertinentes.
1) Esquerda e direita são sempre conceitos relativos, nunca absolutos. Evoluem e variam conforme o tempo e o espaço. Não são preto e branco, são tons de cinza. Em relação ao preto, o cinza é claro; em relação ao branco, o cinza é escuro. Esquerda e direita definem-se uma em relação à outra.
2) Historicamente, o termo “esquerda” tem sido carregado de conotação negativa. A língua também marca essa conotação.
Na Bíblia, Cristo “…está sentado à direita de Deus Pai Todo Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.” E no dia do Juízo … “Quando, pois, vier o Filho do homem na sua glória, […] diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros […]. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: – Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; […] Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.” No alto do monte Calvário, ladeando Jesus crucificado, estavam o bom ladrão, à direita, que no mesmo dia estaria com ele no Paraíso, e o mau ladrão, à esquerda.
Em latim, direita é “dextera”, esquerda é “sinistra” – origem da palavra “sinistro”. Os canhotos, em idos tempos, eram tidos como anormais e amaldiçoados.
Uma pessoa “gauche” (“esquerda”, em francês), é “errada”, fora do normal. “Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.” (Carlos Drummond de Andrade)
Dizer de alguém que é uma pessoa “direita” é elogiá-la. Fazer algo “direito” é fazer bem feito. Etc…
Portanto, carregamos inconscientemente a associação da palavra “esquerda” com o que é errado, ruim.
3) Origem histórica do termo na política
Em termos políticos, contemporaneamente, a divisão entre direita e esquerda originou-se do posicionamento dos parlamentares na Assembleia Nacional durante a Revolução Francesa. Os conservadores, defensores do Antigo Regime, ficavam à direita, enquanto os que queriam mudanças (mais ou menos radicais, conforme os diferentes grupos) sentavam-se à esquerda.
Naquele período de grande efervescência, havia uma enorme variação dentro da escala político-ideológica. O pensamento mais conservador era o dos que defendiam a manutenção de uma monarquia de direito divino, ligada à Igreja Católica. Defendiam uma sociedade teocêntrica e altamente hierarquizada. Esses poderiam ser chamados de “extrema-direita”.
No extremo oposto, estavam os anarquistas. Na Revolução Francesa, a vitória final foi do centro – composto majoritariamente pela burguesia em ascensão.
Portanto, na origem histórica contemporânea dessa divisão política, o direitista extremo era o defensor da monarquia de direito divino, com sociedade altamente hierarquizada e Estado (na pessoa do soberano) forte, absoluto. O esquerdista extremo era o anarquista, aquele que defendia a eliminação de todo governo e a liberdade individual total.
Eliminada a monarquia de direito divino com o desenrolar da Revolução Francesa (e suas idas e vindas pendulares), o que a subsistiu foi a república burguesa. E assim, nessa evolução histórica, a república burguesa (esquerda em relação ao Antigo Regime) passou a ocupar o lugar mais à direita no espectro político. Eliminavam-se os privilégios da nobreza, mas não em favor do povo e sim da burguesia (detentora de um ascendente poder econômico).
No século 20, a Revolução Russa fez do socialismo comunista capitaneado pela União Soviética o representante mais à esquerda em relação à república burguesa. Nesse sistema bipolar, era fácil alguém localizar-se politicamente pelo alinhamento com o “Ocidente” (o capitalismo estadunidense) ou com o “Oriente” (o socialismo soviético).
4) Liberdade x Igualdade
Buscando-se o lema da Revolução Francesa – “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” – pode-se definir grosseiramente o dilema entre os dois regimes da Guerra Fria como a prevalência da Liberdade sobre a Igualdade (caso do capitalismo) ou da Igualdade sobre a Liberdade (caso do socialismo). Do ponto de vista econômico, no capitalismo, todos devem ter a liberdade de fazer o que quiserem – o que gera grandes desigualdades; no socialismo, todos devem renunciar a grandes parcelas de liberdade em benefício da igualdade.
No atual panorama mundial, as coisas já não são assim tão simples e dicotômicas. Na situação pré-Revolução Francesa, a defesa da monarquia católica de direito divino estava acompanhada da adoção da moral cristã, enquanto a anarquia pressupunha também a libertação em relação à moral religiosa. O Estado forte da “direita” defensora do Antigo Regime englobava a vigilância da moral – e, portanto, a limitação das liberdades individuais em nome dessa moral (no caso, a moral católica). Contemporaneamente, o liberalismo econômico não esteve necessariamente atrelado ao liberalismo moral. Se a república burguesa decepou o topo da pirâmide (a nobreza) em favor de um regime econômico menos engessado e uma hierarquia social com maior mobilidade e menor desigualdade, sua moral manteve-se bastante atrelada à moral cristã.
Relativamente ao Antigo Regime (monarquia absoluta de direito divino), a república burguesa estava à esquerda. Mas, em relação ao socialismo soviético, passou a representar a posição conservadora e mais à direita. Assim, grupos economicamente “conservadores” (da república burguesa), que pregam a liberdade econômica, são normalmente também conservadores do ponto de vista moral (quando pareceria normal defenderem a liberdade individual também nesse ponto). E nem mesmo a esquerda economicamente coletivista, no socialismo real (ou seja, em países nos quais se adotou um regime comunista), livrou-se da moral burguesa. Já os grupos de esquerda em países capitalistas são mais tendentes a rechaçar a moral judaico-cristã, defendendo a liberdade individual do ponto de vista moral (embora – contradição – o socialismo, do ponto de vista econômico, pregue a restrição à liberdade em favor da igualdade).
Obviamente, a extensão deste texto exige uma abordagem muito simplificada (e, portanto, um tanto simplista), mesmo porque a gradação de posições políticas e morais é muito ampla e variada para se classificar apenas em “esquerda” e “direita”. Nessa simplificação, pode-se dizer que, nas condições de hoje, quanto mais tendente à máxima liberdade econômica individual (e, portanto, à mínima intervenção estatal no sistema econômico), tanto mais “de direita” será a pessoa. E, no sentido contrário, quanto mais tendente a apoiar a intervenção estatal para o controle da economia (de modo a favorecer o interesse coletivo em detrimento dos interesses individuais), tanto mais “de esquerda”. No âmbito moral, será tão mais “direitista” quem mais defender o respeito às regras morais judaico-cristãs (família tradicional, repressão à sexualidade, proibição do uso de drogas etc. – ou seja, o controle das ações morais individuais). E tão mais “esquerdista” será quem mais defender a liberdade individual nessas questões. Ou seja, há uma flagrante contradição entre a defesa da liberdade econômica e da liberdade moral individual nos conceitos atuais de “direita” e “esquerda”.
O Estado forte, que cerceia as liberdades individuais, existia na monarquia absolutista. E também na ditadura do proletariado. E no regime militar brasileiro (estatizante e nacionalista). Hoje, a defesa do Estado intervencionistas é pauta da esquerda.
Nesse panorama um tanto confuso, há os “liberais autênticos”, que adotam a defesa tanto da liberdade econômica quanto da liberdade individual, argumentando ser essa uma posição mais coerente do que a posição “conservadora” tradicional da “direita”, uma vez que repudiam a intervenção estatal tanto na economia quanto no controle das liberdades individuais.
Pois é, as coisas não são tão simples… Hoje, no Brasil, um partido teoricamente “de esquerda”, como o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira, vejam só o nome!) defende as privatizações, pauta tipicamente de direita.
Na política brasileira, quais partidos são de direita ou de esquerda? Teoricamente, a resposta deveria estar nos programas partidários. Mas a realidade é que o comportamento dos políticos frequentemente tem muito pouco a ver com os programas partidários. Na quase totalidade, os partidos brasileiros são amontoados de gente com sede de poder, sem real interesse programático. A ponto de partidos com programas francamente de esquerda, chegando ao poder, tomarem atitudes abertamente “direitistas”. Seria muito bom se os eleitores conhecessem os programas partidários e passassem a cobrar dos políticos ações coerentes com os programas de suas agremiações. Alás, ler os programas pode assustar muita gente…

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